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Meu filho Joel decidiu redecorar o quarto. Ele queria prateleiras ao longo de duas paredes adjacentes, tendo os móveis ao centro. Gostei da idéia, inclusive de uma escrivaninha de canto para abrigar o computador e outros “tesouros”.

Já vi Joel trabalhar em outros projetos e o tenho elogiado por seus esforços, mas fiquei feliz pelo fato de ele ter me pedido ajuda. Não queria ver seu quarto entulhado de restos de madeira, mal encaixados e pintados com qualquer tinta que pudesse encontrar em nossa garagem. Achei que seria uma boa experiência de aprendizado, e não apenas um meio de melhorar a aparência de nossa casa. Queria ensinar-lhe tudo o que podia para que ele desfrutasse satisfação e alegria em fazer o melhor possível.

Medimos o quarto e discutimos as possibilidades. Desenhamos o projeto em papel graduado, colocamos miniaturas dos móveis feitas de papel em vários lugares e vasculhamos a garagem em busca de restos de madeira reaproveitáveis. Só então, compramos o que não tínhamos. [Continue lendo]

O pequeno Mateus parou, extasiado, no Zoológico de Fort Worth. Ele quase não podia acreditar no que via. A sua frente estava Cera, seu dinossauro favorito, personagem do filme A Terra antes do Tempo. Ele olhava fixamente. Seus pais, depois de um tempo, insistiam para visitar outros locais. Soluçando, ele implorava por mais tempo, enquanto era puxado pelos pais. Esta fixação infantil pelos dinossauros para muitos passa com o tempo, mas alguns manterão seu amor por essas fascinantes criaturas durante toda a vida.

As crianças das igrejas cristãs não são exceção. Entretanto, nas denominações mais conservadoras surgem numerosas questões de cunho teológico que se tornam problemáticas à medida que as crianças crescem. Essas questões podem ser sintetizadas em uma só: como os dinossauros se encaixam em uma perspectiva bíblica?

Existe hoje uma crescente base de dados sobre dinossauros, incluindo ossos, dentes, pegadas, ovos, embriões, impressões de pele, e excrementos. Aparentemente, os dinossauros terrestres existiram em todos os tamanhos e formas. As informações sugerem populações ativas, reproduzindo-se, em uma escala global.1 Em face das crescentes evidências, é difícil afirmar que os dinossauros nunca existiram. Entretanto, algumas pessoas defendem esse ponto de vista porque não conseguem conciliar a existência dos dinossauros com a sua compreensão da natureza de Deus. Há, portanto, necessidade de os cristãos reconhecerem o significado desses animais na perspectiva bíblica da história da Terra.

Freqüentemente esse dilema é expresso assim: “Não posso compreender que Deus tenha colocado o Tyrannosaurus rex no jardim do Éden.” Outros comentam que os dinossauros são “tão feios”, por isso não acreditam que um Deus amorável e compassivo tenha criado uma degradante “máquina de matar”. Entretanto, essas mesmas pessoas não se preocupam com o fato de Deus ter criado os leões, o que leva à pergunta: “Qual é a diferença entre um tiranossauro e um leão?” Certamente existem muitas diferenças. Sendo ambos carnívoros, a questão é a existência de predadores no jardim do Éden. Quanto a isso, mesmo que cristãos crentes na Bíblia acreditem que Deus criou uma “espécie” de felinos, sua suposição é que eles eram herbívoros, pelo menos antes de Adão e Eva pecarem, e parece lógico que esse argumento poderia também ser aplicado aos dinossauros carnívoros.

O que aparenta ser uma questão simples, torna-se bastante complexa ao se tratar das implicações decorrentes. Examinaremos esse assunto nas questões seguintes.

Os dinossauros realmente existiram?

Alguns poucos ossos espalhados não seriam suficientes para concluir que realmente os dinossauros existiram. Entretanto, o registro de ossos de dinossauros é muito amplo, e a sua variedade amplia nosso conhecimento a seu respeito. Pegadas bem preservadas e ovos com embriões indicam que os dinossauros eram criaturas vivas, que se deslocavam e se reproduziam.2 As pegadas são a argumentação mais poderosa a favor de sua existência.

Registros em rochas em todo o mundo oferecem fascinantes informações. Cientistas têm encontrado nas rochas grandes depósitos de ossos de dinossauros, que sofreram mineralização e ficaram preservados. Esses ossos petrificados são chamados de fósseis. Havendo suficientes ossos fossilizados de um animal, cientistas poderão reconstruí-lo. Até 1990, haviam sido reconstruídos 197 esqueletos completos de dinossauros.3 Desde então, muitos mais foram também.

Ao estudar os ossos, os cientistas desenvolveram um sistema de classificação a partir de estruturas ósseas peculiares a esse grupo de animais. Considere-se, por exemplo, que os crânios de dinossauros apresentam orifícios não encontrados em répteis ou mamíferos, que o tornozelo é composto de uma junta única, e que as vértebras são diferentes das de outros organismos.4 O exame da estrutura interna dos ossos sugere que os dinossauros constituem um grupo peculiar de animais, bastante distinto dos mamíferos e dos répteis. Grande parte da estrutura óssea apresenta reposição celular que a preserva ao se tornar um fóssil.5 Os detalhes microscópicos observados indicam linhas de crescimento e vesículas nos ossos, combinação de características peculiares dos dinossauros não encontrada em répteis ou mamíferos, embora alguns aleguem certa semelhança entre Coelophysids e aves.

Os dinossauros foram classificados em dois grupos distintos em função de sua estrutura pélvica. O primeiro grupo abrange os terópodes ou dinossauros carnívoros, e os saurópodes, dinossauros de grande porte, com pescoço e cauda cumpridos e estrutura pélvica semelhante a dos répteis. O segundo grupo engloba todos os outros dinossauros que têm ossos pélvicos semelhantes aos das aves. As estruturas pélvicas dos dinossauros são peculiares, apesar da sua semelhança com as de outros animais.6

Têm surgido problemas no sistema de classificação dos dinossauros devido à dificuldade de se distinguir entre gêneros e espécies. Em 1990, 45% dos 285 gêneros de dinossauros haviam sido identificados a partir de um único osso. Muitas pessoas são céticas a respeito dessas identificações. Os pesquisadores também se preocupam com as classificações que foram desenvolvidas para os dinossauros, pois muitos gêneros têm apenas uma espécie. Eles suspeitam que alguns desses gêneros são na realidade somente espécies de gêneros descritos.7 Apesar dessas dificuldades, há considerável material para sugerir que existiu ampla variedade de dinossauros.

Os assuntos aqui discutidos sugerem que os dinossauros foram criaturas peculiares e, como tais, poderiam bem representar uma “espécie” criada, como relatado no livro de Gênesis. A variedade, a distribuição e a combinação dos traços e características dos dinossauros sugerem a possibilidade do cruzamento entre eles, tal como ocorre agora com cães ou flores; entretanto, a variedade de espécies é bem mais fácil de ser realizada do que a variedade encontrada entre famílias de dinossauros, da mesma forma como a origem de uma nova classe de organismos.

Para os que pensam que os ossos de dinossauros são fraudes, existem dados adicionais que sugerem o contrário. Alguns ossos fósseis são encontrados com impressões deixadas pela pele, e nos oferecem informação adicional sobre a aparência desses organismos. Se os ossos fossem uma fraude, teria sido muito difícil incluir aquelas impressões de pele no osso que se encontrava ainda inserido na rocha.

Se eles fossem uma fraude, o fraudador teria também de ter criado as pegadas. As informações obtidas a partir das pegadas são mais interessantes.8 As pegadas aparecem em variados tamanhos e formas. Quando os rastros têm suficiente extensão, podem ser determinados os passos e a maneira de andar do dinossauro. A maioria das pegadas indica que os dinossauros estavam andando e não correndo, e pareciam mancar. É difícil determinar por que os dinossauros estariam mancando. Poderiam estar machucados, carregando seus filhotes ou comida. Qualquer que seja a explicação, a presença das pegadas confirma que os dinossauros realmente estavam vivos e movimentando-se. É interessante observar que os pesquisadores não descobriram ainda nenhum dinossauro morto junto às suas pegadas. Camadas de ossos de dinossauros são encontradas em camadas acima e abaixo, mas não junto com as pegadas.

Algumas trilhas apresentam pegadas grandes juntamente com outras pequenas9, o que sugere um bando de dinossauros. Alguns pesquisadores supõem que esses bandos estavam seguindo uma rota natural de migração, enquanto outros poderão não concordar com essa conclusão. Dentro do contexto bíblico da história da Terra, a movimentação dos dinossauros pode refletir respostas de sobrevivência e fatores de pressão relacionados com modificações na terra e nas águas do dilúvio subindo e descendo.

Finalmente, existem evidências da reprodução de populações de dinossauros. Ninhos, ovos, embriões e filhotes têm sido registrados.10 Existem mais de 200 locais com ovos, ao redor do mundo. Embriões e filhotes são raros. A existência desses depósitos indica que pelo menos alguns dinossauros estavam se reproduzindo.

Os pesquisadores nem sempre conseguem dizer quais dinossauros puseram quais ovos. No início do século 20, pensou-se que ovos descobertos na Mongólia eram do Protoceratops, o dinossauro herbívoro dominante na região.11 No final dos anos 1900, porém, foi descoberto outro ninho com os ossos do pequeno predador Oviraptor, em cima dos ovos. Além disso, escaneando-se um ovo, foi descoberto um embrião de Oviraptor. Os depósitos da Mongólia despertam muitas perguntas. Por que o Oviraptor sentaria no ninho enquanto ele estava sendo soterrado por uma tempestade de areia? Teria ele se afogado em uma lagoa entre dunas durante uma repentina chuva pesada? Sentou-se no ninho por que ele era de sangue quente? Quantos estavam sentados sobre os ovos? Quantos ninhos existiam?

Muitas perguntas permanecem sem respostas, mas o volume de dados disponíveis confirma que os dinossauros realmente existiram.

Quando os dinossauros existiram?

Não são tão conclusivas as evidências sobre quando os dinossauros existiram. Eles são encontrados nas camadas mesozóicas do registro fóssil (coluna geológica). Datações radiométricas de camadas associadas de lava e de cinza vulcânica indicam que eles viveram entre 65 e 225 milhões de anos atrás, bem além das idades bíblicas aceitas. (De acordo com a datação radiométrica, pensa-se que a Terra tenha entre 4,6 a 4,7 bilhões de anos).

Os primeiros registros de ossos de dinossauros em rochas foram feitos na mesma unidade do Período Triássico (o Carniano) em quatro continentes.12 O surgimento diversificado e espalhado de dinossauros no registro fóssil é difícil de explicar pela atual teoria da evolução. Essa dificuldade raramente é trazida à atenção do público, o que de fato não é incomum, pois ninguém gosta de falar sobre o que não sabe.

É importante lembrar que as datas radiométricas não constituem dados (fatos reais); elas exprimem o resultado de cálculos matemáticos baseados na distribuição de materiais radioativos nas rochas.13 O tempo aí não é medido diretamente, mas corresponde ao expoente na expressão que dá a inclinação da linha gerada pela distribuição dos isótopos. Essa distribuição baseia-se nas propriedades físicas e químicas do interior do corpo rochoso fundido. Conseqüentemente, o relato bíblico da história da Terra é igualmente legítimo como fonte de dados relativos ao tempo.

Em resumo, exatamente como os cientistas acreditam que possuem um modo confiável para medir períodos de tempo no registro das rochas, muitos cristãos acreditam que possuem uma fonte de informação confiável (a Bíblia) para a idade da vida na Terra – conseqüentemente, permanece controvertida a determinação precisa da idade dos dinossauros.

Os dinossauros conviveram com os seres humanos? Como?

A crença de que dinossauros e seres humanos conviveram na Terra não se baseia em evidências científicas (elas não existem), mas sim na confiança depositada na palavra inspirada de Deus. A crença de que Deus criou todos os seres vivos e que eles eram bons, bem como a crença de que não houve “derramamento de sangue”, predação, na Terra antes do ser humano pecar, induz muitos a crer que dinossauros e pessoas podem ter convivido pacificamente.

É importante observar que nem todos os dinossauros eram de grande porte, carnívoros.14 Metade das famílias de dinossauros era do porte de uma girafa adulta (cerca de sete metros de altura), ou menor, alguns tendo o tamanho de um cachorro grande. Além disso, a maioria dos dinossauros era herbívora.

De alguma forma seria Satanás responsável pela origem dos dinossauros?

Alteraria Satanás o DNA de alguns animais para dar origem aos dinossauros? São os seres humanos responsáveis por essa origem? Teriam os seres humanos manipulado geneticamente os primeiros dinossauros? Em minha opinião, a resposta a todas essas questões é “NÃO!” Os dinossauros eram organismos peculiares, que tinham estruturas e traços próprios. Isso significa que sua origem requereria mais do que misturas ou alterações; exigiria novas informações, uma atividade criadora que a maioria dos cristãos acredita residir somente no poder de Deus.

Foram os dinossauros hibridizados a partir de outras espécies de animais?

O cruzamento sugerido por alguns cristãos para a origem dos dinossauros exigiria descendência viável a partir da miscigenação de mamíferos e répteis, dois filos distintos. Em nosso mundo não é possível a hibridização de filos. Cruzamento de espécies são bastante comuns; entretanto, existem limites para aquele tipo de cruzamento.15

Então Deus realmente criou os dinossauros?

Por que um Deus de amor criaria o Tyrannosaurus rex? Este animal viveu no jardim do Éden? A partir dos dados que temos, é razoável supor que Deus criou algum ou alguns tipos básicos de dinossauros. Ainda mais, alguma variedade de terópodes, que poderia ter incluído o Tyrannosaurus rex.

Entretanto, na perspectiva bíblica, seria difícil acreditar que os animais no Éden eram carnívoros. A alteração de sua dieta teria ocorrido após a Queda.

O que exterminou os dinossauros?

Muitas teorias foram propostas para a extinção dos dinossauros:16 (1) uma drástica mudança climática devido ao impacto de um asteróide ou ao aumento de vulcanismo, ou ambos; (2) um rompimento na cadeia alimentar; ou (3) a evolução dos dinossauros para aves. Muitos cristãos não crêem que os dinossauros evoluíram para aves, e comprovou-se a dificuldade para documentar o rompimento na cadeia alimentar.

A destruição dos dinossauros pelo dilúvio adapta-se à perspectiva da Bíblia. O sepultamento dos dinossauros em grande variedade de sedimentos depositados pela água ao redor de todo o mundo17 é compatível com o relato bíblico. A complexidade do dilúvio bíblico pode ter desempenhado importante papel na destruição da Terra e dos organismos.

Se os dinossauros foram criados por Deus, por que foram extintos?

Numerosos organismos, que os cristãos crêem terem sido criados por Deus, foram extintos. Os sistemas oceânicos alteraram-se de forma impressionante desde o mundo pré-diluviano. Populações de insetos, anfíbios, répteis e mamíferos são hoje radicalmente diferentes. Nem tudo que Deus criou sobreviveu até hoje – resultado do pecado humano não da vontade divina.

Deus atuou continuamente para salvar vidas, como se vê ao longo de todo o relato bíblico do dilúvio. Infelizmente, nem tudo que foi salvo pôde sobreviver no mundo pós-diluviano.

Havia dinossauros na arca?

Pelo menos metade das famílias dos dinossauros poderia estar dentro da arca, pois eram suficientemente pequenos. Além disso, é importante lembrar que nem todas as espécies tinham de estar na arca. Eram necessárias espécies representativas, ou tipos básicos, pois reconhecemos que existe variedades pelo menos dentro de gêneros (grupos de espécies). Entretanto, é importante lembrar que não existem dados científicos para sustentar essa idéia. A crença de que os dinossauros estavam na arca de Noé é uma declaração de fé.

Conclusão

Alguém poderá pensar que essas questões são ridículas. Entretanto, os cristãos fazem essas indagações porque desejam uma explicação da natureza que se harmonize com o relato bíblico da história da Terra. Embora as respostas aqui apresentadas possam não satisfazer totalmente a todos, pelo menos elas provêem uma base para discussão e estudos posteriores.

Ainda existem muitas maravilhas para conhecer sobre a obra criadora de Deus. A promessa divina é que as conheceremos diretamente do Mestre eterno, na Terra renovada. Até lá, como cristãos, somos motivados a pesquisar e estudar a história da Terra com o auxílio do relato bíblico e da inspiração do Espírito Santo.

Elaine Graham-Kennedy (Ph.D., Universidade do Sul da Califórnia) é geóloga e tem focalizado suas pesquisas no Grand Canyon, Arizona, e na Patagônia, Argentina. Atualmente está estudando uma camada de ossos de dinossauros no leste de Wyoming, e trabalhando como professora adjunta de Geologia na Universidade Adventista Southwestern, em Keene, Texas. Recentemente publicou o livro Dinosaurs: Where Did They Come From … And Where Did They Go? (Boise, Idaho: Pacific Press Publishing Association, 2006), que está disponível no endereço http://www.adventbookcenter.com. Seu e-mail é elainekennedy@gmail.com

REFERÊNCIAS

1. K. Carpenter, K. Hirsch, and J. Horner. Dinosaur Eggs and Babies. Nova Iorque: Cambridge University Press, 2000. p. 372.

2. M. Lockley. Tracking Dinosaurs. Nova Iorque: Cambridge University Press, 1991. p. 238.

3. D. Lambert and the Diagram Group. Dinosaur Data Book. Nova Iorque: Avon Book, 1990. p. 320.

4. A. Romer. Vertebrate Paleontology. Chicago: University of Chicago Press, 1996. p. 468.

5. A. Chinsamy-Turan. The Microstructure of Dinosaur Bone. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2005. p.216.

6. A. Romer. pp. 148-163.

7. P. Dodson. “Counting Dinosaurs: How Many Kinds Were There?”. In: Proceedings of the National Academy of Sciences 87, 1900. pp. 7608-7612.

8. M. Lockley. pp. 61-70.

9. Ibidem. pp. 71-82.

10. K. Carpenter, et al., p. 372.

11. Disponível em: <http://www.dinosaur-world.com/feathered_dinosaurs/oviraptor_philocerataops.htm>.

12. A. Hunt. “Synchronous First Appearance of Dinosaurs Worldwide During the Late Triassic (Late Carnian: Tuvalian)”. In: Geological Society of America, Abstracts with Program, 1991. p. A457.

13. G. Faure. Principles of Isotope Geology. Nova Iorque: John Wiley and Sons, 1986. p. 608.

14. Lambert, et al., p. 320.

15. J. Gibson. “Creation and Evolution: A Look at the Evidence” (1999). Disponível em: <http://origins.swau.edu/papers/evol/gibson/default.html>.

16. Artigo anônimo resumindo numerosas explicações dadas para a extinção dos dinossauros. Disponível em: <http://www.priweb.org/ed/ICTHOL/ICTHOL04papers/04.htm>.

17. Lambert, et al., pp. 230-261.

Fonte: http://dialogue.adventist.org/articles/18_3_kennedy_p.htm

Por Samuele Bacchiocchi

A atitude da sociedade quanto ao sexo tem ido de um extremo ao outro. “A pessoa da época vitoriana,” escreve Rollo May, “procurava ter amor sem cair no sexo; o humano moderno procura ter sexo sem cair no amor.”1 Do ponto de vista puritano do sexo como um mal necessário para a procriação, chegamos à concepção popular do sexo como algo necessário para recreação.

Ambos os extremos estão errados e deixam de cumprir a intenção divina quanto ao sexo. A opinião negativa faz os casados se sentirem culpados quanto a suas relações sexuais; a opinião permissiva transforma as pessoas em robôs, entregando-se ao sexo sem muito sentido ou satisfação.

Como deveria o cristão relacionar-se com o sexo? Que diz a Bíblia sobre a sexualidade? Como cristão que crê na Bíblia, achei os sete princípios seguintes úteis para a compreensão de como deveríamos nos relacionar com o sexo.

Princípio nº 1: A Bíblia fala da sexualidade humana como boa

Comecemos com o começo: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gênesis 1:27). Depois de cada ato de criação, Deus disse “que isso era bom” (Gênesis 1:12, 18, 21, 25), mas depois da criação da humanidade como homem e mulher, Deus disse “que era muito bom” (Gênesis 1:31). Esta avaliação inicial da sexualidade humana como algo “muito bom” mostra que a Bíblia vê a distinção sexual macho/fêmea como parte da qualidade boa e perfeita da criação divina original.

Note também que a dualidade sexual humana como macho e fêmea é dita explicitamente ter sido criada à imagem de Deus. Como as Escrituras distinguem os seres humanos de outras criaturas, os teólogos têm usualmente pensado que a imagem de Deus na humanidade se refere às faculdades racionais, morais e espirituais que Deus outorgou a homens e mulheres.

Contudo, há um outro modo de compreender a imagem de Deus, implícita em Gênesis 1:27: “À imagem de Deus o criou: homem e mulher os criou.” Assim a masculinidade e a feminilidade humanas refletem a imagem de Deus no sentido que o homem e a mulher têm a capacidade de experimentar uma unidade de companheirismo semelhante à que existe na Trindade. O Deus da revelação bíblica não é um Ser solitário e único, que vive em alheamento eterno, mas sim um companheirismo de três Seres unidos de um modo tão íntimo e misterioso que nós Os adoramos como um só Deus. Esta unidade misteriosa da Trindade reflete-se como uma imagem divina na humanidade, na dualidade sexual de homem e mulher, misteriosamente unidos em casamento como “uma só carne”.

Princípio nº 2: A relação sexual é um processo pelo qual dois tornam-se “uma só carne”

O companheirismo íntimo entre homem e mulher é expresso em Gênesis 2:24: “Por isto deixa o homem pai e mãe, e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” A frase “uma só carne” refere à união de corpo, alma e espírito entre cônjuges. Esta união total pode ser experimentada especialmente através da relação sexual, quando o ato é a expressão de amor, respeito e devoção genuínos.

A frase “tornando-se os dois uma só carne” expressa a estimativa divina do sexo dentro da relação conjugal. Diz-nos que Deus vê o sexo como um meio pelo qual o marido e a esposa podem atingir nova unidade. É digno de nota que a imagem “uma só carne” nunca é usada para descrever a relação de uma criança com seu pai ou mãe. O homem precisa deixar seu pai e mãe para se tornar “uma só carne” com sua mulher. Sua relação com sua esposa é diferente de sua relação com os pais porque consiste de uma nova unidade consumada pela união sexual.

Tornar-se “uma só carne” implica também que o propósito do ato sexual não é apenas procriativo (produzir filhos), mas também psicológico (satisfazendo a necessidade emocional de consumar nova relação de unidade). Unidade implica na disposição de revelar ao outro do modo mais íntimo seu eu físico, emocional e intelectual. Ao se conhecer do modo mais íntimo, o casal experimenta o significado de tornar-se uma só carne. A relação sexual não garante automaticamente esta unidade. Antes consuma a intimidade de uma participação perfeita que já se desenvolveu.

Princípio nº 3: Sexo é conhecer um ao outro no nível mais íntimo

Relações sexuais dentro do casamento permitem a um casal chegar a conhecer um ao outro de um modo que não pode ser experimentado de nenhum outro modo. Participar da relação sexual significa revelar não apenas seu corpo, mas também seu ser interior um ao outro. É por isto que as Escrituras descrevem a relação sexual como “conhecer” (ver Gênesis 4:1), o mesmo verbo usado no hebraico em referência a conhecer a Deus.

Obviamente Adão tinha chegado a conhecer Eva antes de sua relação sexual, mas através dela chegou a conhecê-la mais intimamente do que antes. Dwight H. Small observa a propósito: “Revelação através da relação sexual encoraja revelação em todos os níveis da existência pessoal. Esta é uma revelação exclusiva e única para o casal. Eles se conhecem como a ninguém mais. Este conhecimento único equivale a reclamar o outro num pertencer genuíno…. A nudez e a ligação física é simbólica do fato de que nada é oculto ou retido entre eles.”2

O processo que leva à relação sexual é um de conhecimento crescente. Do conhecimento casual inicial ao cortejo, casamento e relação sexual, o casal cresce no conhecimento um do outro. A relação sexual representa a culminação deste crescimento recíproco e intimidade. Como Elizabeth Achtemeier o expressa: “Sentimos como que a mais oculta profundidade de nosso ser é trazida à superfície e revelada e oferecida um ao outro como a expressão mais íntima de nosso amor.”3

Princípio nº 4: A Bíblia condena o sexo fora do casamento

Uma vez que sexo representa a mais íntima de todas as relações interpessoais, expressando uma unidade de devoção completa, tal unidade não pode ser expressada ou experimentada numa união sexual casual na qual o intento é puramente recreacional ou comercial. A única unidade experimentada em tais uniões é a da imoralidade.

Imoralidade sexual é grave porque afeta o indivíduo mais profunda e permanentemente do que outro pecado qualquer. Como Paulo afirma: “Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer, é fora do corpo; mas aquele que pratica imoralidade peca contra o próprio corpo” (I Coríntios 6:18). Alguém poderá dizer que até a glutonaria e a bebedice afetam uma pessoa no interior do corpo. Mas esses pecados não têm o mesmo efeito permanente sobre a personalidade como o pecado sexual.

Abuso no comer ou no beber pode ser vencido, bens furtados podem ser devolvidos, mentiras podem ser retratadas e substituídas pela verdade, mas o ato sexual não pode ser desfeito. Uma mudança radical, que não pode jamais ser desfeita, ocorreu na relação interpessoal do casal em questão.

Isto não significa que pecados sexuais sejam imperdoáveis. A Bíblia nos assegura por exemplo e preceito que se confessarmos nosso pecado, o Senhor é “fiel e justo para perdoar todos os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça” (I João 1:9). Quando Davi se arrependeu de seu duplo pecado de adultério e homicídio, Deus o perdoou (ver Salmos 51 e 32).

Princípio nº 5: O sexo sem compromisso reduz a pessoa a um objeto

Sexo fora do casamento é sexo sem compromisso. Tais relações casuais destroem a integridade da pessoa por reduzir a outra a um objeto de gratificação pessoal. Pessoas que se sentem feridas e usadas depois de encontros sexuais podem se retrair completamente de atividade sexual de medo de serem usadas novamente, ou podem decidir usar seus corpos egoistamente, sem consideração pelos sentimentos dos outros. De um modo ou de outro, a sexualidade é pervertida porque ele ou ela destruiu a possibilidade de usar sua sexualidade para relacionar-se genuina e intimamente com a pessoa que ama.

Sexo não pode ser usado como divertimento com um parceiro uma vez e como modo de expressar amor genuíno e compromisso com outro parceiro noutra ocasião. A perspectiva bíblica de unidade, intimidade e amor genuíno não pode ser realizada em sexo fora do casamento ou em sexo com parceiros múltiplos.

Noivos provavelmente dirão que estão expressando amor genuíno ao engajar em sexo pré-marital. De uma perspectiva cristã, noivos respeitarão um ao outro e considerarão o noivado como uma preparação para o casamento, e não como casamento. Até assumir os votos matrimoniais, existe a possibilidade de romper a relação. Se um casal teve relação sexual, comprometeram sua relação. Qualquer ruptura subseqüente deixará cicatrizes emocionais permanentes. É somente quando um homem e uma mulher desejam tornar-se um, não apenas verbal como também legalmente, assumindo responsabilidade por seu parceiro, que eles podem selar seu relacionamento através da união sexual.

Em nenhuma outra área tem sido a moralidade cristã atacada como na área de sexo fora do casamento. A condenação bíblica de atos sexuais ilícitos é clara mas freqüentemente ignorada com subterfúgios. Por exemplo, a fornicação é chamada sexo pré-marital, com a ênfase sobre o “pré”. Adultério é chamado sexo “extramarital”, não como um pecado contra a lei moral divina. A homossexualidade passa de uma perversão grave para “desvio” e “variação gay”.

Mais e mais, cristãos estão cedendo ao argumento especioso de que “o amor o justifica”. Se um homem e uma mulher se amam profunda e genuinamente, é dito que eles têm o direito de expressar seu amor através da união sexual fora do casamento. Alguns argüem que sexo pré-marital libera as pessoas de suas inibições, dando-lhes a sensação de liberdade emocional. A verdade é que o sexo pré-marital aumenta a pressão emocional porque reduz o amor sexual a um nível puramente físico, sem o comprometimento total de duas pessoas casadas.

Princípio nº 6: Sexo é ao mesmo tempo procriativo e relacional

Até o começo de nosso século, os cristãos geralmente criam que a função primária do sexo era procriativa. Outras considerações, como os aspectos de união, relação e prazer do sexo eram vistos como secundários. No século XX a ordem foi invertida.

De um ponto de vista bíblico, atividade sexual dentro do casamento é tanto procriativa como relacional. Como cristãos, precisamos recuperar e manter o equilíbrio bíblico entre estas duas funções do sexo. União sexual é um ato prazenteiro de participação perfeita que gera um sentimento de unidade ao mesmo tempo que oferece a possibilidade de trazer um novo ser ao mundo. Precisamos reconhecer que o sexo é uma dádiva divina que pode ser desfrutada legitimamente dentro do casamento.

Paulo encoraja maridos e esposas a cumprirem seus deveres conjugais, porque seus corpos não lhes pertencem somente mas um ao outro. Portanto não deveriam privar um ao outro do sexo, exceto por acordo mútuo por algum tempo para se devotar à oração. Depois deveriam se ajuntar de novo para que Satanás não os tente por causa da incontinência (I Coríntios 7:2-5; ver também Hebreus 13:4).

Princípio nº 7: O sexo permite ao homem e à mulher refletirem a imagem de Deus participando em Sua atividade criativa

Na Bíblia, o sexo serve não somente para gerar uma unidade misteriosa de espírito, mas também oferece a possibilidade de trazer crianças a este mundo. “Sede fecundos, multiplicai-vos,” diz o mandamento de Gênesis (Gênesis 1:28).

Naturalmente, nem todos os casais podem ter ou são justificados em ter filhos. Velhice, infertilidade e enfermidades genéticas são alguns dos fatores que tornam a geração de filhos impossível ou desaconselhada. Para a maioria dos casais, contudo, ter filhos é uma parte normal da vida conjugal. Isto não significa que todo ato de união sexual deva resultar em concepção.

“Não fomos feitos para separar sexo da geração de filhos,” escreve David Phypers, “e os que o fazem, de modo total e final, puramente por razões pessoais, estão certamente falhando quanto ao propósito divino para suas vidas. Correm o risco de que seu casamento e atividade sexual se tornem egoístas. Só consideram sua própria satisfação, em vez de levar em conta a experiência criativa de trazer nova vida ao mundo, nutrindo-a para a maturidade.”4

Procriação como parte da sexualidade humana traz à tona a importante questão de medidas anticoncepcionais. Será que o mandamento de ser fecundo e multiplicar significa que devemos deixar o planejamento familiar ao esmo?

Não se encontra uma resposta explícita na Bíblia. Vimos que o sexo é tanto relacional como procriacional. O fato de que a função do sexo no casamento não é apenas de gerar filhos, mas também para expressar e experimentar amor mútuo e compromisso, implica a necessidade de certas limitações na função reprodutiva do sexo. Isto significa que a função relacional do sexo pode ser uma experiência dinâmica viável, se sua função reprodutiva for controlada.

Isto nos leva a outra questão: Temos o direito de interferir com o ciclo reprodutivo estabelecido por Deus? A resposta histórica da Igreja Católica Romana tem sido um claro “NÃO”! A posição católica tem sido moderada pela encíclica Humanae Vitae (Julho 29, 1968), do Papa Paulo VI, que reconhece a moralidade da união sexual entre marido e mulher, mesmo se não visa a geração de filhos.5 A encíclica, embora condenando medidas anticoncepcionais artificiais, permite um método natural de controle de natalidade conhecido como o “método do ritmo”. Este método consiste em limitar a união sexual aos períodos inférteis no ciclo menstrual da mulher.

A tentativa da Humanae Vitae de distinguir entre medidas anticoncepcionais “artificiais” e “naturais”, tornando a primeira imoral e a segunda moral, tem um ar de arbitrariedade. Tanto num caso como no outro, a inteligência humana impede a fertilização do ovo. O rejeitar como imoral o uso de medidas anticoncepcionais artificiais pode levar à rejeição do uso de qualquer vacina, hormônio ou medicamento que não é produzido naturalmente pelo corpo humano.

“Como quaisquer outras invenções humanas,” escreve David Phypers, “a prevenção de gravidez é moralmente neutra; o que importa é o que fazemos com ela. Se a usarmos para praticar sexo fora do casamento ou egoistamente dentro do casamento, ou se por ela invadimos a privacidade do casamento de outros, podemos com efeito ser culpados de desobedecer a vontade de Deus e de perverter a relação matrimonial. Contudo, se a usarmos com o devido respeito à saúde e ao bem-estar de nossos parceiros e de nossas famílias, então pode aprimorar e fortalecer nosso casamento. Pela prevenção de gravidez podemos proteger nosso casamento das tensões físicas, emocionais, econômicas e psicológicas que poderiam advir de outras concepções, e ao mesmo tempo podemos usar o ato conjugal, reverente e amorosamente, para nos unir numa união duradoura.”6

Conclusão

A sexualidade é parte da bela criação divina. Nada tem de pecaminoso. Contudo, como todas as dádivas de Deus aos seres humanos, o sexo caiu sob o plano satânico de desviar a humanidade da intenção divina. A função do sexo é de unir e procriar, dentro da relação de homem e mulher se unirem para formar “uma só carne”. Quando esta relação é rompida, quando o sexo ocorre fora do casamento — tanto premarital como extramaritalmente — temos a violação do sétimo mandamento. E isto é pecado — pecado contra Deus, contra um ser humano e contra o próprio corpo.

Mas a Bíblia não nos deixa sem esperança. Ela nos oferece a graça de Deus e o poder de vencer todo pecado que nos assedia, incluindo o pecado sexual. Embora pecados deixem marca na consciência e prejudiquem a outra pessoa, o arrependimento genuíno pode abrir a porta ao perdão divino. Nenhum pecado é tão grande que a graça de Deus não possa curar e restaurar. Tudo de que precisamos é buscar aquela graça, pois é ela que nos habilita a alcançar todo potencial que o Criador pôs dentro de nós.

E isto se aplica também ao sexo. Numa época em que a permissividade e a promiscuidade sexuais prevalecem, é imperativo para nós cristãos reafirmarmos nosso compromisso com o ponto de vista bíblico acerca do sexo como uma dádiva divina para ser desfrutada somente dentro do casamento.

Samuele Bacchiocchi (Ph.D., Pontifical University, The Vatican) leciona teologia e história da igreja na Universidade Andrews, Berrien Springs, Michigan, E.U.A. Este artigo é uma adaptação do capítulo 3 de seu livro, The Marriage Covenant, que pode ser encomendado de Biblical Perspectives; 4990 Appian Way; Berrien Springs, MI 49103; E.U.A.

Notas e referências

1.   Rollo May, “Reflecting on the New Puritanism”, em Sex Thoughts for Contemporary Christians, ed. Michael J. Taylor, S. J. (Garden City, New York: Doubleday, 1972), pág. 171.

2.   Dwight H. Small, Christian: Celebrate Your Sexuality (Old Tappan, N.J.: Revell, 1974), pág. 186.

3.   Elizabeth Achtemeier, The Committed Marriage (Philadelphia: Westminster, 1976), pág. 162.

4.   David Phypers, Christian Marriage in Crisis (Bromley: Marc Europe, 1985), pág. 38.

5.   Humanae Vitae, parágrafo 11.

6.   Phypers, pág. 44.

Fonte: http://dialogue.adventist.org/articles/08_1_bacchiocchi_p.htm